Thursday, March 30, 2006

O papel principal

Diz-me
que é possível uma outra vida.
Mostra-me
que é possível recomeçar.
Lembra-me
que ainda vale a pena.
Soletra-me
a palavra liberdade.

Conta-me essa história de encantar
em que finalmente
vivo o papel da minha vida.
O papel principal.

Visto-me de esperança agora
e carrego nos braços
os aromas do Verão.

Passo a passo,
cada vez menos hesitante
percorro este palco.
Sorris-me ao longe
e os passos soltam-se
- livres.

Diz-me ...
diz-me mais uma vez que é possível uma vida plena.

Wednesday, March 29, 2006

Retalhos de vida

Viagem. O tempo deslizava veloz pela janela. Misturava-se com a paisagem, enovelava-se de pensamentos. Alimentava-se da ansiedade.

Tu finalmente, e o mar. Azul. Imenso. Baía de sonhos debruada a prata. Aroma agreste a maresia. Embalaste-me no teu abraço como nos havíamos prometido um dia. As palavras eram de amor. Ainda era manhã e o dia mal começara.

De mãos dadas fizemos mais uma viagem. Outro mar. Casa-ninho e o mar em fundo. Casa-ninho e o amor em volta.
Era manhã ainda e o dia havia demorado tanto a chegar. Derramaram-se as carícias que há muito tardavam. Como mel. Trouxemos os sonhos de volta e recriámo-los. Inventámos um tempo em que os relógios pararam - submissos a uma vontade maior que a vida.

Depois ... depois sem nós querermos, o sol caíu no horizonte. A música parou e o silêncio instalou-se. Falou mais alto que o mar. E foi o Sol a beijar as águas que nos lembrou que a vida corria cá fora. E o peso de uma ausência anunciada, tomou corpo e instalou-se entre nós.

Quem disse que a despedida é triste? Não, nesse instante ainda as marcas do sonho estão gravadas na pele, as carícias e os beijos latentes no corpo, o perfume e o sémen vivos em mim.
Triste é o dia seguinte, quando em cada minuto recriamos o sonho, quando procuramos na pele o cheiro do outro, quando do mar já não ouvimos o som.

Triste é o dia seguinte, quando o silêncio tornado corpo, toma o lugar do teu.

Sunday, March 26, 2006

Tudo e nada

Tudo por um momento.
Tudo por uma palavra.
Tudo por uma carícia.
Tudo afinal ...
por nada.

Saturday, March 25, 2006

As outras palavras

Há palavras que sobrevoam
as palavras ditas.
Sâo palavras aladas,
- caladas -,
apenas pensadas.

Há palavras que planam
sobre as palavras
faladas.
Pairam como folhas arrancadas,
embaladas
apenas no pensamento.

Há palavras despenhadas
a pique.
Gritadas
sobre as palavras
murmuradas.
São palavras
danadas,
amaldiçoadas,
que explodem e ferem
como granadas.

E há ainda as outras ...
as palavras soterradas.
Pesadas.
Revoltadas.
Mil vezes pensadas
Dia a dia ponderadas.

Nunca ditas.
Condenadas!

Tuesday, March 21, 2006

Sobre um fio ...

Neste fio que enfeitamos
de palavras
brilham sóis.

Somos malabaristas
sem rede
num palco onde o
público
não aplaude.

Somos prestidigitadores
sem cartola
num espectáculo
em que os gestos
se inventam ao minuto.

Fazemos magias
sem varinha,
e feitiços
sem pós de perlimpimpim.

Inventamos flores
onde estão cardos.
Transformamos manhãs
em dias plenos.
Multiplicamos as palavras.

Sobre um fio,
re-inventamos o amor,
enfeitamo-lo de sóis
e acreditamos ser felizes.

Monday, March 20, 2006

De sombra ...

De amor e de sombra
vivem os amantes,
de momentos fugazes
se alimentam.
Eternidades que cabem
numa hora.
Há beijos enlouquecidos
pela espera.
Mãos sôfregas de
gestos
em silêncio sonhados.

De amor e de sombra
se vestem os amantes.
Diz-me amor,
quando me despes tu?

Thursday, March 16, 2006

Hoje...

Hoje.
Hoje mais.
Hoje mais ainda.
Hoje mais ainda sinto.
Hoje mais ainda sinto a tua falta.

Porque o ontem,
- o ontem não se repete
e o amanhã tarda.
Porque a vida é uma só
e o tempo se esgota.

Sobrevivemos
em cada novo dia
à custa daquele único dia,
até ao dia
em que possamos viver de novo.

Monday, March 13, 2006

Aquele dia!

Naquele dia
para que o amor florisse
o tempo parou!

Nos olhos brilhou
a esperança,
nos teus dedos
floresci
- fruto maduro -,
desabrochei mulher.

Naquele dia
o silêncio foi corpo.
Naquele dia
o corpo foi dádiva,
e o tempo suspenso
num abraço infinito.

Naquele dia
em que o tempo parou
só os lábios sentiram,
só os olhos disseram,
só os corpos viveram.

Aquele dia
foi dia e foi noite,
foi sonho e manhã.
Foi nosso.

Sunday, March 12, 2006

Diz-me que é verdade!

Diz-me que é verdade
o que os teus olhos falam.

Diz-me que é verdade
o que os teus lábios gritam.

Diz-me que é verdade
o que as tuas mãos prometem.

Diz-me que é verdade
o que o teu corpo afirma.

Diz-me que é verdade
o que leio em ti.

Diz-me que é verdade
o que escreves para mim.

Diz-me que é verdade
o que sonho
o que calo
o que penso
o que falo.

Diz-me ... só mais uma vez!

Friday, March 10, 2006

Re(viver)

Os teus dedos traçam
caminhos de sonho no meu corpo.
Os teus olhos falam palavras secretas
que adivinho.

Mergulho inteira no amor
que te transcende.
Vivo em poucas horas toda uma vida.

Tempo roubado que guardo,
e hoje de novo

Revivo,
Recordo,
Recupero,
Renovo,

para me lembrar que a vida
ainda tem sentido.

Thursday, March 09, 2006

Mais uma vez ...

Do dia emerjo
sofrida
e a noite engole-me
inteira,
nela desaguando, perdida.
No peito, um fosso escuro
e fundo
onde me escondo,
onde me atolo,
- onde permaneço enrodilhada e
trémula
até que a madrugada
me encontre.

Qualquer ida tem o seu regresso.
Qualquer medalha tem o seu reverso.
Duas faces de uma mesma viagem.

As mãos agora perdidas
acariciam o vazio
como borboletas tontas longe da luz.
Os olhos mais pobres.
O corpo desengonçado
embalando os gestos para que não
os esqueça.

Do dia emerjo sofrida.
Emendo e remendo
esta rede que me prende,
esta teia que me cobre,
este manto que me oculta.

Cada vez mais rota.
Cada vez mais ténue.
Em cada vez...
de cada vez ...
mais uma vez ...

Wednesday, March 08, 2006

Fim de cena

Olho para mim e sempre me surpreendo!
Actriz,
representando diariamente,
incansavelmente,
os meus inúmeros papéis.
Sou Eu
e Eu
e ainda Eu.

As falas
ainda que mal ensaiadas
- perfeitas.
Os gestos
calculados
- nos tempos certos.
A uma qualquer deixa
- a resposta pronta.
Sou Eu
e Eu
e ainda Eu.

Transmuto-me.
Transformo-me.
Conspurco-me.

Quando finalmente só,
o pano cai.
Deponho as máscaras
e quando as olho - vazias -
oiço ainda,
deformadas pelo eco da mentira,
as últimas palavras.
Os risos fingidos
são agora esgares.
E enquanto eu,
cansada e gasta,
removo os restos do dia
agarrados à pele,
mais uma vez me pergunto,
(todos os dias mais uma vez):

Por quanto tempo mais?

Monday, March 06, 2006

No fim

No fim da estrada
vejo-me só.
Os anos passaram - ágeis -,
as rugas cravadas
e a mágoa definitivamente
instalada.

Procuro nos espelhos
as minhas velhas máscaras
mas só me encontro a mim.
Nos vidros gastos reflecte-se
turvamente
um rosto que não reconheço.
O corpo que carrego prende-me,
aprisiona-me a um futuro
que já está escrito.

Tenta ainda voar o pensamento!
Lembrar palavras,
gestos,
sabores.
As palavras estão vivas,
os gestos fluidos,
os sabores sempre doces,
mas apenas eu me encontro
no fim desta estrada
- esta que eu própria desenhei!
Calculo que só,
rodeada de espelhos
corroídos
e baços
onde já não revejo os meus outros eus
perdidos na voragem.

Para quê ficarem,
se todos os outros partiram?

Reflectido apenas um rosto marcado.
Solitário.
Gasto.
Um corpo esvaziado
numa casa vazia ...

Hoje não há palavras

Hoje não há palavras...
Só o silêncio.
Só a mágoa.

E o silêncio se fez ave
e envolveu-me em suas asas.

E a ave se fez grito
e ampliou a minha mágoa.

E o grito desaguou
em mim,
transfigurando-me!