Saturday, December 31, 2005

Cerco

No dia último, o cerco estreita-se.
O tempo esgotado
aprofunda a angústia que se instalou
há muito.
E é preciso decidir!
Como é difícil!

Thursday, December 29, 2005

...

No aroma das palavras ditas invento o desejo,
E celebro o orgasmo numa orgia de emoções!

Tuesday, December 27, 2005

Pudesse eu ...

Pudesse eu guardar certos momentos ...

Pedaços de ti.
O teu olhar de prazer
que se derrama sobre mim.
Azul de mar em maré viva.

Dá-me a tua boca, dizes-me,
e presa dela me entrego
a vagas imensas de desejo e posse.

Pudesse eu guardar certos momentos ...

O teu corpo sobre o meu.
As tuas mãos que me agarram
com a força de quem deseja.
As palavras ditas em sussurro.
Roucas.
Térreas.
Livres.

O teu peso.
O teu cheiro -
o da tua pele, macia e branca
sob os meus dedos.
As minhas unhas percorrem-te
e são as tuas mãos em mim que me
contam do teu prazer.

Pudesse eu guardar certos momentos ...
E as minhas noites vazias
Encher-se-íam de luz.

Balanço

Momentos ganhos
e
momentos perdidos.

Balanço de uma vida!

Horas de júbilo
e
horas de desespero.

Balanço de uma vida!

Líquidos ou pastosos
os dias escorrem.
Trazem dôr e prazer.
Levam a Vida.

Esquecem-se as dores.
Amordaçam-se os prazeres.
Enterra-se a Vida.

Monday, December 26, 2005

Encontro

Ultrapasso o tempo.
Quero vencer a distância -
aquela que me separa do teu corpo.
Aquele que me põe longe de ti.
As palavras sussurradas
quero transformá-las em gestos.
Os gestos imaginados quero senti-los em mim.
Para ti
transformarei as palavras que
não ouso dizer
em doces carícias,
e as minhas mãos revelar-te-ão
os meus pensamentos
mais ousados.
Enquanto rouca a voz,
perdidos os sentidos,
ganharemos o tempo
e anularemos a distância.
E no êxtase final
nos reencontraremos.

Thursday, December 22, 2005

Tempo

Tempo.
Imediato.
Curto.
Finito.
O tempo do desejo.

Tempo.
Longo.
Pesado.
Infinito.
O tempo da espera.

Conto o tempo das palavras por dizer.
Conto o tempo das acções por completar.

Meço o tempo da espera,
neste tempo ... em que o tempo se esgota.

Tuesday, December 20, 2005

Há dias em que a vida pesa!

Há dias
em que a vida pesa!
Em que os anos que conto
duplicam de repente.
Os cabelos já embranquecidos
aclaram ainda mais
com o peso de uma dôr
que persiste em ficar.

Há dias
em que a vida perde o sentido!
O passado torna-se presente
e o futuro desaparece,
soterrado em dúvidas e remorso.

Há dias
em que a vida se perde
num segundo!
Escorrem pelos dedos
os sonhos e os desejos.
A esperança amarrotada
e jogada suja a um canto.
Perdidos os objectivos.

Há dias
em que a vida foge!

Sunday, December 18, 2005

Léxico

Há palavras que não entram no meu léxico. Ou há sentimentos que me sinto impossibilitada de sentir.
Qual a diferença entre "gosto muito de ti" e "amo-te"?
Porque é tão difícil dizer-te "meu amor"?
Há palavras que não entram no meu léxico simplesmente porque não são sentidas.
"Amo-te?" Nunca amei. Nunca achei ter atingido o limite máximo do gostar. E quando solicitada a pronunciá-la, há algo de primordial, algo de muito fundo que me faz cerrar a boca e o coração, como se o facto de o dizer - apenas dizê-lo - mesmo sem o sentir, me esgotasse, violasse em mim a última réstea de pureza e verdade que possuo.
"Amo-te". O último reduto a alcançar. A montanha mais alta. O inatingível e mais puro silêncio. "Amo-te" não pode ser mais uma palavra vã, desvirtuada a sua essência, atraiçoada a sua verdade.
"Amo-te". A palavra que nunca poderei sussurrar.
Eu. Impura. Imperfeita. Infiel. Insegura.
Eu. Fria. Materialista. Libertina.
Eu. Oca. Vazia. Empedernida.
As mãos vazias e o coração palpitante ... aguardando sempre.
Esperando ainda alcançar a montanha mais alta e sentir o silêncio mais puro.

Thursday, December 15, 2005

Abraço

Alongo o braço
do abraço,
e estico o braço
para longe.
E o longe
estreita-se.

E o abraço
do teu braço
que me abraça,
fica agora à distância
do meu braço.

Tuesday, December 13, 2005

Migalhas

Agora,
quero apanhar de ti
as últimas migalhas.
Agora,
esgotado o desejo,
saciados os sentidos.

Queria reter-te mais um pouco.
Olhar-te de olhos fechados,
a respiração compassada
as tuas mãos sobre o meu corpo.
(Porque é tão difícil
dar-te esta ternura imensa
que me invade?)

O tempo sempre a contar.
O sol desce rapidamente.
A música parou
e os nossos corpos
já não dançam
enlaçados como há pouco.

Agora,
saciado o desejo,
esgotados os sentidos,
tento ainda
(tentarei sempre)
apanhar as últimas migalhas
de ti.

Monday, December 12, 2005

Retrato

Misturo o timbre da tua voz
com a doçura das palavras
e moldo o teu corpo.
Esculpo-o com o barro
das emoções
e a magia do sonho.

E a tua voz
são mãos
e as palavras
abraço.

Das minhas mãos
nasce o corpo
Nas tuas
inventas-me.

E a tua voz é sonho
e as palavras
caminho.

No meu sonho te faço inteiro
e me recrio.

Sunday, December 11, 2005

Subversão

Mascaro as palavras.
Troco os gestos.
Subverto as normas.
Invento um novo Eu.

O rosto fecha-se
e a boca é um traço fino desenhado
a raiva.
As mãos apertam-se sobre si próprias.
Os nós dos dedos brancos
de lágrimas contidas.

Troco as palavras.
Mascaro os gestos.
Invento as normas.

Subverto-me.
Liberto-me.

Thursday, December 08, 2005

Rotas

Percorro agora um caminho novo. Inesperado. Tentador. Piso firmemente e olho em frente. E avanço. Cegamente ? Não. Sei perfeitamente para onde vou. A linha está traçada bem a direito. Nítida e rectilínea no seu desenho.
A emoção da descoberta. A tentação do desconhecido.
A vertigem que me atrai inexoravelmente para um redemoinho que teima em me envolver.
Que eu desejo que me envolva. Que eu procuro até.
Olho para trás e vejo a minha vida em pequenos e grandes retalhos. Pedaços de vida. Experiências variadas. Amores. Desilusões. Rupturas. E mais amores ... e mais amores. Este percurso não tem volta para trás. Não há arrependimento (deveria haver? seria sinal de maturidade tardia?). Não. Não posso dizer não ter gostado de viver o que vivi. O bom e o mau. Porque também do mau se podem tirar lições e partir para novas caminhadas.
Olho para trás e vejo alguns anos mal aproveitados - de inércia e de expectativas goradas - mas outros plenos de sabor e de vida.
Quero seguir em frente segura dos meus passos. Sempre soube muito bem o que quero (quando quero). Sempre pisei sabendo os riscos que corria. Sempre desejei o inesperado e a miragem. As tentações que se atravessam no meu caminho foram sempre impulsionadoras de acção, verdadeiros bafos de vida.
Quanto tempo ainda terei para aproveitar o que a vida me dá?
Quanto tempo até que a imobilidade e o vazio se instalem.?
Morrer não me assusta. O vazio em vida, sim. E depois, assim valerá ainda a pena viver?

Tuesday, December 06, 2005

Entrega

A ti me entrego
em cada vez
como se fosse a última.
A ti me entrego inteira.
O meu corpo recebe-te avidamente.
Uma sede imensa e urgente
que não se sacia nunca.
O meu corpo/cálice
que te espera
sôfrego de ti.

A ti me entrego
em cada vez
como se a primeira fosse.
Os anos não contam.
A nudez dos corpos que se desejam
é cega para tudo o que não sejas tu.
E eu.
A minha pele atrai a tua pele.
O teu cheiro mistura-se com o meu.
E somos um só.

A ti me entrego
como pela primeira vez,
ou como se fosse a última ...
Sempre,
apenas,
e unicamente
a ti.

Sunday, December 04, 2005

Manhã

É com coisas verdadeiramente simples que se podem transformar os dias!
Logo pela manhã, duas mensagens de carinho que me deixaram feliz.
Depois, um encontro inesperado.
"Vim ver-te" disseste-me. E o meu coração sorriu.

Friday, December 02, 2005

Cansaço

Há dias em que me sinto verdadeiramente cansada. Cansada de desempenhar um papel que já se colou ao meu corpo e não se desgruda mais. Será que não consigo voltar atrás? Refazer a minha vida.
Há dias em que as lágrimas enchem os meus olhos por tudo... e por nada.
Há dias em que nem os amigos chegam. O que precisava era de estar sózinha. Sózinha na minha casa. Sózinha na minha cama. Sózinha na minha alma.
Sózinha para poder reflectir, olhar para trás e pensar se valeu a pena. Olhar para a frente e ponderar se ainda vale a pena.
Estou muito cansada desta peça que já represento com muito esforço. Desta máscara que me cai a toda a hora.
Estou cansada de tudo.